quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O PROBLEMA DA VERDADE I

A DESCOBERTA DA VERDADE

Na Grécia antiga, nos primórdios da filosofia clássica, existiam inúmeras escolas sofisticas que, ao supervalorizar o ato do debate, relativizavam a existência da VERDADE em praticamente todos os níveis. Naturalmente, se não existe uma verdade, não há por que construir conhecimento, uma vez que inexistência da verdade o tornará fútil. A futilidade do bem-saber, contudo, levava os sofistas e seu círculo de influência a ignorar a nobreza inerente ao conhecimento, a relativizar a existência do certo e do errado, do bem e do mal. Isso não só conduzia os participantes a um vazio espiritual imenso, em que a vida parece não fazer sentido, mas gerava problemas particularmente ásperos no que tangia a vida em comunidade. O sofisma, portanto, por se ater a relativizações excessivas e grosseiras – além de ser, de praxe, desonestamente verossímil e convincente – acabava por servir de justificativa para excessos materiais que, em outra situação, seriam completamente inadmissíveis. Ou seja, a descrença nas VERDADES OBJETIVAS acabava, como acaba cedo ou tarde, por destruir o espírito humano e levar a sociedade ao caos.
Sócrates, percebendo isso, condenou absolutamente a existência de uma ciência que não partisse diretamente da observação das verdades mais óbvias e inegáveis para, a partir delas, discorrer sobre noções mais elevadas e distantes da experiência direta, resolvendo objetivamente questões morais que, antes disso, eram tratadas banalmente como mera questão de opinião (vide e.g. a questão da Justiça, que era tratada antes como um meio para se obter fins diversos, e que Sócrates conseguiu provar ser um bem em si, independentemente de quais sejam as consequências do seu exercício).
A consequência imediata disso foi avassaladora: se existe uma VERDADE e esta não é relativa, ela precisa necessariamente ser premissa de todo processo filosófico. É com Sócrates, portanto, que ela se torna a condição sine qua non para se fazer FILOSOFIA. Logo, discursar – ou dissertar – sem compromisso com a verdade não é fazer filosofia, mas produzir sofismas – requintes retóricos vazios, de pura vaidade, que visam antes a convencer alguém que reconhecer a realidade tal qual ela é.
Os frutos dessa norma foram imediatamente brilhantes. Aristóteles conseguiu formalizar o que Sócrates descobrira, fundando o que conhecemos hoje como método científico. Ele fundou as bases para que desse a educação formal através da GRAMÁTICA, da RETÓRICA e da LÓGICA. Ele, em uma sociedade politeísta governada por uma moral literária, conseguiu através da filosofia provar a EXISTÊNCIA DE DEUS, e que esse Deus era um só. Era como se a sua filosofia tentasse, pela sua própria natureza, alcançar o que havia de divino no mundo – a própria VERDADE. Não parece banal coincidência que essa mesma Verdade tenha descido dos céus poucos anos depois, para presentear a humanidade com algo que, agora, ela estaria preparada para processar: a fugacidade do mundo e a perenidade da alma em Deus.
Os discípulos indiretos de Aristóteles, especialmente após a Revelação, foram ilustres e inúmeros, dentre os quais, Santo Agostinho, bispo de Hipona, um dos maiores filósofos e teólogos que a humanidade já concebeu, e que forneceu as bases filosóficas, teológicas e morais para que se erguesse, das cinzas do Império Romano, a IDADE DA LUZ, rebatizada pejorativamente pelos humanistas Idade Média.

A NATUREZA DA DISSERTAÇÃO

Não raras vezes, tive alunos experimentando dificuldade em discernir DISSERTAÇÃO de ARTIGO DE OPINIÃO. Disse-nos Aristóteles, na Poética:
ἂν ἰατρικὸν ἢ φυσικόν τι διὰ τῶν μέτρων ἐκφέρωσιν, οὕτω καλεῖν εἰώθασιν: οὐδὲν δὲ κοινόν ἐστιν Ὁμήρῳ καὶ Ἐμπεδοκλεῖ πλὴν τὸ μέτρον, διὸ τὸν μὲν ποιητὴν δίκαιον καλεῖν, τὸν δὲ φυσιολόγον μᾶλλον ἢ ποιητήν. (Aristot. Poet. 1447b, http://perseus.tufts.edu, 2013)

“Se alguém compuser em verso um tratado de medicina ou de física, esse será costumeiramente chamado [poeta]. Mas nada comum há entre Homero e Empédocles exceto o metro; por isso, enquanto aquele merece ser chamado poeta, este [merece ser chamado] fisiólogo mais do que poeta.”

Bem, se a distinção de gênero é inerente à natureza do texto, e não à sua forma, precisamos primeiramente analisar qual seria a natureza de um e de outro.
Sabe-se ser impossível descrever e sistematizar qualquer princípio, ligado ou não à linguagem, sem a utilização mesma da linguagem. Percebendo isso, Aristóteles percebeu que é impossível que uma pessoa desenvolva a própria inteligência sem dominar, antes disso, a linguagem. Identificando, pois, as inúmeras variações de linguagem, que passavam por intenção, ambiente de uso, lugar etc., ele postulou que a Arte da Filosofia se devesse construir sobre um discurso reto, id est, SIMPLES, CLARO, OBJETIVO, privado de emoções e falácias que lhe incutissem credibilidade sem mérito. Essa descrição se encaixa com perfeição na nossa definição de dissertação.
Simplicidade e clareza são, para todos os efeitos, questão de linguagem. Para que haja clareza comunicativa, é necessário que haja um VOCABULÁRIO formalmente ligado a CATEGORIAS VERDADEIRAS, comuns ao locutor e ao interlocutor, ou em plena demonstração para este. Para que haja simplicidade, é preciso que o locutor não utilize erroneamente a sua RETÓRICA de modo a confundir o interlocutor com construções confusas ou com informações não pertencentes ao contexto – hoje, usa-se a formalização de estilo como estratégia para balizar essas características. Ora, se ambas são os requisitos tanto para a dissertação quanto para o artigo de opinião, resta-nos a objetividade como fator diferencial entre ambos: enquanto a dissertação é pedida por professores como um texto OBJETIVO, o artigo de opinião é avaliado como um texto SUBJETIVO. Apenas a definição basta para saber que uma dissertação não pode ter como foco as emoções e opiniões do autor (sujeito), mas deve tratar de maneira direta e neutra sobre o assunto (objeto). Sendo assim, o próprio gênero dissertativo pressupõe a existência de uma natureza própria do objeto, e que o ponto de vista deve, na medida do possível, ceder-lhe lugar.

Apesar, portanto, de o nome Dissertação remeter etimologicamente à expressão das palavras, precisamos entender que a descrição do seu gênero per se exige que se vá além; entender que o próprio discurso (λόγος – lógos, em grego), configurado em dissertação, é a ferramenta principal de formação do conhecimento e de investigação do mundo (φιλοσοφία – philosophía, em grego). Então, pode-se concluir seguramente que dissertar é parte fundamental de um processo de investigação sobre a VERDADE, palavra integrante dos vocábulos proibidos pelo novíssimo politicamente correto. Não presumir a existência de uma VERDADE OBJETIVA, portanto, significa presumir a impossibilidade de se escrever um texto objetivo; significa igualar dissertação ao artigo de opinião, tornando o conteúdo programático do MEC redundante; significa presumir que tudo no mundo é questão de opinião, reduzindo toda e qualquer manifestação da realidade a uma loucura idiossincrática; significa, por fim, tornar toda a produção de conhecimento uma atividade tão inútil quanto fútil.
Adianto-lhes: as quatro últimas consequências, bem como outros possíveis destrinchamentos, podem ser facilmente observadas falsas porque há, sim, uma VERDADE OBJETIVA, que independe da opinião de quem observa. O grande problema de tal inevitável conclusão é que ela nos atira contra uma muralha de preconceitos culturais desenvolvidos ao longo de alguns séculos com um propósito político específico. Mas, pela saúde deste mesmo texto, os deixarei para uma próxima escrita.