A DESCOBERTA DA VERDADE
Na Grécia antiga,
nos primórdios da filosofia clássica, existiam inúmeras escolas sofisticas que,
ao supervalorizar o ato do debate, relativizavam a existência da VERDADE em praticamente
todos os níveis. Naturalmente, se não existe uma verdade, não há por que
construir conhecimento, uma vez que inexistência da verdade o tornará fútil. A
futilidade do bem-saber, contudo, levava os sofistas e seu círculo de
influência a ignorar a nobreza inerente ao conhecimento, a relativizar a
existência do certo e do errado, do bem e do mal. Isso não só conduzia os
participantes a um vazio espiritual imenso, em que a vida parece não fazer sentido, mas gerava problemas
particularmente ásperos no que tangia a vida em comunidade. O sofisma,
portanto, por se ater a relativizações excessivas e grosseiras – além de ser,
de praxe, desonestamente verossímil e convincente – acabava por servir de
justificativa para excessos materiais que, em outra situação, seriam completamente
inadmissíveis. Ou seja, a descrença nas VERDADES OBJETIVAS acabava, como acaba cedo ou tarde, por destruir o espírito humano e levar a
sociedade ao caos.
Sócrates, percebendo isso, condenou absolutamente a existência de uma ciência
que não partisse diretamente da observação das verdades mais óbvias e inegáveis
para, a partir delas, discorrer sobre noções mais elevadas e distantes da
experiência direta, resolvendo objetivamente questões morais que, antes disso,
eram tratadas banalmente como mera questão de opinião (vide e.g. a questão da Justiça, que era tratada antes como um meio
para se obter fins diversos, e que Sócrates conseguiu provar ser um bem em si,
independentemente de quais sejam as consequências do seu exercício).
A consequência
imediata disso foi avassaladora: se existe uma VERDADE e esta não é relativa, ela precisa
necessariamente ser premissa de todo processo filosófico. É com Sócrates,
portanto, que ela se torna a condição sine qua non para se fazer FILOSOFIA.
Logo, discursar – ou dissertar – sem
compromisso com a verdade não é fazer filosofia, mas produzir sofismas –
requintes retóricos vazios, de pura vaidade, que visam antes a convencer alguém
que reconhecer a realidade tal qual ela é.
Os frutos dessa
norma foram imediatamente brilhantes. Aristóteles conseguiu formalizar o que Sócrates descobrira, fundando o que
conhecemos hoje como método científico. Ele fundou as bases para que desse a
educação formal através da GRAMÁTICA, da RETÓRICA e da LÓGICA. Ele, em uma sociedade politeísta governada por uma moral literária,
conseguiu através da filosofia provar a EXISTÊNCIA DE DEUS, e que esse Deus era um só. Era como se a sua filosofia tentasse, pela
sua própria natureza, alcançar o que havia de divino no mundo – a própria VERDADE. Não parece
banal coincidência que essa mesma Verdade tenha descido dos céus poucos anos
depois, para presentear a humanidade com algo que, agora, ela estaria preparada
para processar: a fugacidade do mundo e a perenidade da alma em Deus.
Os discípulos indiretos de Aristóteles, especialmente após a Revelação, foram
ilustres e inúmeros, dentre os quais, Santo
Agostinho, bispo de Hipona, um dos maiores filósofos e teólogos
que a humanidade já concebeu, e que forneceu as bases filosóficas, teológicas e
morais para que se erguesse, das cinzas do Império Romano, a IDADE DA LUZ, rebatizada pejorativamente pelos humanistas Idade
Média.
