Não raras vezes,
tive alunos experimentando dificuldade em discernir DISSERTAÇÃO de ARTIGO DE OPINIÃO.
Disse-nos Aristóteles, na Poética:
ἂν ἰατρικὸν ἢ φυσικόν τι διὰ τῶν μέτρων ἐκφέρωσιν,
οὕτω καλεῖν εἰώθασιν: οὐδὲν δὲ κοινόν ἐστιν Ὁμήρῳ καὶ Ἐμπεδοκλεῖ πλὴν τὸ
μέτρον, διὸ τὸν μὲν ποιητὴν δίκαιον καλεῖν, τὸν δὲ φυσιολόγον μᾶλλον ἢ ποιητήν.
(Aristot. Poet. 1447b, http://perseus.tufts.edu, 2013)
“Se alguém compuser em verso um tratado de
medicina ou de física, esse será costumeiramente chamado [poeta]. Mas nada
comum há entre Homero e Empédocles exceto o metro; por isso, enquanto aquele
merece ser chamado poeta, este [merece ser chamado] fisiólogo mais do que poeta.”
Bem, se a distinção
de gênero é inerente à natureza do texto, e não à sua forma, precisamos
primeiramente analisar qual seria a natureza de um e de outro.
Sabe-se ser
impossível descrever e sistematizar qualquer princípio, ligado ou não à
linguagem, sem a utilização mesma da linguagem. Percebendo isso, Aristóteles percebeu
que é impossível que uma pessoa desenvolva a própria inteligência sem dominar,
antes disso, a linguagem. Identificando, pois, as inúmeras variações de
linguagem, que passavam por intenção, ambiente de uso, lugar etc., ele postulou
que a Arte da Filosofia se devesse construir sobre um discurso reto, id est, SIMPLES, CLARO,
OBJETIVO, privado de emoções e falácias que lhe incutissem credibilidade sem
mérito. Essa descrição se encaixa com perfeição na nossa definição de
dissertação.
Simplicidade e
clareza são, para todos os efeitos, questão de linguagem. Para que haja clareza
comunicativa, é necessário que haja um VOCABULÁRIO formalmente ligado a CATEGORIAS VERDADEIRAS, comuns ao locutor e ao interlocutor, ou em
plena demonstração para este. Para que haja simplicidade, é preciso que o
locutor não utilize erroneamente a sua RETÓRICA de modo a confundir o interlocutor com construções confusas ou com
informações não pertencentes ao contexto – hoje, usa-se a formalização de
estilo como estratégia para balizar essas características. Ora, se ambas são os
requisitos tanto para a dissertação quanto para o artigo de opinião, resta-nos
a objetividade como fator diferencial entre ambos: enquanto a dissertação é
pedida por professores como um texto OBJETIVO, o artigo de opinião é avaliado como um texto SUBJETIVO. Apenas a
definição basta para saber que uma dissertação não pode ter como foco as
emoções e opiniões do autor (sujeito), mas deve tratar de maneira direta e
neutra sobre o assunto (objeto). Sendo assim, o próprio gênero dissertativo
pressupõe a existência de uma natureza própria do objeto, e que o ponto de
vista deve, na medida do possível, ceder-lhe lugar.
Apesar, portanto, de
o nome Dissertação remeter etimologicamente à expressão das palavras, precisamos entender
que a descrição do seu gênero per se
exige que se vá além; entender que o próprio discurso (λόγος – lógos, em grego), configurado em
dissertação, é a ferramenta principal de formação do conhecimento e de
investigação do mundo (φιλοσοφία – philosophía,
em grego). Então, pode-se concluir seguramente que dissertar é parte
fundamental de um processo de investigação sobre a VERDADE, palavra
integrante dos vocábulos proibidos pelo novíssimo politicamente correto. Não
presumir a existência de uma VERDADE OBJETIVA, portanto, significa presumir a impossibilidade de se escrever um texto
objetivo; significa igualar dissertação ao artigo de opinião, tornando o
conteúdo programático do MEC redundante; significa presumir que tudo no mundo é
questão de opinião, reduzindo toda e qualquer manifestação da realidade a uma
loucura idiossincrática; significa, por fim, tornar toda a produção de
conhecimento uma atividade tão inútil quanto fútil.
Adianto-lhes: as
quatro últimas consequências, bem como outros possíveis destrinchamentos, podem
ser facilmente observadas falsas porque há, sim, uma VERDADE OBJETIVA, que
independe da opinião de quem observa. O grande problema de tal inevitável
conclusão é que ela nos atira contra uma muralha de preconceitos culturais
desenvolvidos ao longo de alguns séculos com um propósito político específico.
Mas, pela saúde deste mesmo texto, os deixarei para uma próxima escrita.

Nenhum comentário:
Postar um comentário